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quarta-feira, 9 de abril de 2008

"La dolce vita"

O lançamento de A doce vida (La dolce vita, 1960), de Federico Fellini, foi um impacto no cenário internacional. O filme, um divisor de água na carreira do genial realizador, foi atacado pelos moralistas de plantão a ponto de Fellini, dois anos depois, realizar um curta, As tentações do Dr. Antônio (episódio de Boccaccio 70, que acompanha os de Visconti e DeSica - a versão em DVD tem um quarto, o de Monicelli, que fora cortado no lançamento), no qual satiriza os seus algozes na figura patética do personagem título, um moralista que se sente indignado com um cartaz publicitário da bela Anita Ekberg (que tem importante papel de La dolce vita), com seus seios fartos, num anúncio que diz: "Beba mais leite". O homem - interpretado por Peppino De Felippo - entra em pânico e em alucinação a se ver perseguido por Anitona, gigante, e ele, pequenino, a escorregar como um personagem de Swifft gulliveriano nos seios-trampolim da mulherona.
Na verdade, filme premonitório, La dolce vita é um conto moral sobre a decadência da civilização ocidental ainda em meados do seu decurso. A linguagem felliniana abandona os ritos sumários de sua estrutura narrativa anterior para fazer emergir, aqui, um filme-mosaico, um painel de seqüências sem uma progressão dramática definitiva.
Não vi La dolce vita quando de sua estréia, mas alguns anos depois. Na época, por menor de idade, não pude ter a visão dessa obra-prima. Lembro-me que comprei uma revista chamada Filmes Franceses na qual o filme era novelizado como as antigas fotonovelas. E lia, com a avidez peculiar à meninice de um quase cinéfilo, as notícias sobre o filme. Aluno de colégio de padres, ouvia, na prática da missa dominical, as homilias pregadas contra o filme. A igreja, naquela época, colocava, na porta de entrada, uma lista que continha os filmes condenados, prejudiciais, para adultos, para adultos com reservas, para todos. La dolce vita foi condenado.
Ainda hoje, quando vejo La dolce vita, sofro o impacto de sua beleza.




3 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Meu caro. Você colocou duas cenas memoráveis de “La dolce Vita”, um filme que para mim foi marcante, pois o assisti numa pré-estréia no Art-Palácio Copacabana, porque um vizinho nosso desistira de ir e deu o convite para meu pai, que, por seu lado, também pouco interessado me passou. Foi um prêmio? Uma dádiva da vida (já que não acredito em outros tipos)? Certamente, o jovem que nunca havia ouvido falar em Fellini, que mal conhecia o cinema europeu, saiu maravilhado daquele espetáculo.
Olha, cara, “81/2”, “Amarcord” e tantos outros são marcantes obras de nosso poeta maior do cinema. Mas, para mim, “A doce vida” foi a descoberta de uma nova fronteira. Foi a descoberta de Fellini, de Mastroianni, da vida pregressa da alta sociedade européia.
Não é a toa que a porra da igreja romana foi contra o filme. Aquilo é contra tudo que é bom no mundo. Os padres comerem criancinhas ou o papa “desmunhecar” não é nada, mas um filme apenas expor o que é a sociedade de forma real, despreocupada e simples é pecado. Mortal, segundo os seus parâmetros.
Você pegou a cena final que para mim é magistral. É o conflito entre a “pureza” que ainda possa existir na vida e a vida mundana de Marcelo, o personagem de Marcelo. É um pouco da visão idealista e até religiosa do autor. Pouco antes, um animal se debatia na areia, declinando a decadência dos costumes, o fim da “moral”. E, separado por um canal a pureza e o ceticismo do personagem recém saído de uma bacanal.
Uma cena inesquecível num filme inequecível, com gente que jamais esqueceremos. Podemos?

André Setaro disse...

Muito belo este sentimento seu em relação a esta obra fundamental, divisora de água, que é La dolce vita. Há filmes que me formaram como cinéfilo, que me abriram fronteiras, que tocaram na minha sensibilidade. 'La dolce vita' está entre eles, porque, embora não tenha tido o privilégio de vê-lo, e no Rio de Janeiro, a sua 'avant-première, nem também no lançamento do filme em Salvador, pude vê-lo ainda adolescente, quando de uma reprise poucos anos depois. Fiquei, literalmente, estupefado. Esta cena que você fala, e que coloquei no post, é belíssima. Após o 'close' daquele 'anjo úmbrio', os letreiros finais dão a continuação da 'mise en scène', que não estão no You Tube neste post em particular, letreiros acompanhados da partitura de Nino Rota (quando este morreu o genial realizador exclamou: "Que será de mim sem Nino?"). Parabéns Jonga, parabéns pela sua sensibilidade em sentir a poética de um momento único da história do cinema.

Jonga Olivieri disse...

“(...) Você pegou a cena final que para mim é magistral. É o conflito entre a “pureza” que ainda possa existir na vida e a vida mundana de Marcelo, o personagem de Marcelo. É um pouco da visão idealista e até religiosa do autor. Pouco antes, um animal se debatia na areia, declinando a decadência dos costumes, o fim da ‘moral’. E, separado por um canal a pureza e o ceticismo do personagem recém saído de uma bacanal...”
Neste trecho da citação anterior a esta sua postagem está o cerne da questão. Fellini foi um gênio. Quando eu disse anteriormente “poeta maior” é porque ele me remete a Drummond, ou ainda mais, a Camões. Mas, talvez seja um Gil Vicente no seu singelo: “Ó, deus, ih... uai!”.
Você pode notar que o personagem Marcelo tenta e não consegue ouvir a menina. Por quê? No universo felliniano, na sua visão moral da vida, Marcelo está além do canal... perdido. Fellini era católico (ninguém é perfeito!). Daí “As tentações do dr. Antônio”, uma resposta àqueles que lhe condenaram na ‘Iglesia Romana’. Mas, infelizmente, por abraçar o cristianismo nosso Federico perdeu-se um pouco no “moralismo” religioso e condenou Marcelo. O condenou quando levou seu pai à zona. O condena ao longo de todo o filme. Marcelo chega a ser espancado por Lex Barker (himself) na Via Vennetto. E o boto agonizante? A visão da decadência?
Acho que às vezes nos propomos a interpretar em demasia as cenas e caímos naquilo que o Glauber falou sobre a queda do personagem da Ioná em “Deus e o diabo...”. Ela caiu. E ficou caída porque simplesmente não havia mais filme para uma refilmagem. Acho este caso fantástico.
Creio, no entanto. que Fellini não colocou o boto ali por acaso. Havia um propósito, Em Fellini tudo tem uma finalidade, nada é gratuito. O boto agonizante é a decadência dos costumes, é a bacanal, é o “pecado” na sua visão idealista/religiosa da história. Assim termina “La dolce Vita”. Assim termina uma epopéia do homem contemporâneo. Assim começa um Fellini que iria arrebentar “a boca do balão” em sua realizações posteriores. Cada vez melhores, cada vez mais profundas, cada vez mais o que somente Fellini conseguiu ser: Fellini. Simplesmente Fellini. Para sempre Fellini. E, neste momento meus olhos se enchem de lágrimas. Por Fellini. Pelo ser humano que ele – antes mesmo de realizador – o foi...

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