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sábado, 26 de abril de 2008

"Carrinho de Pau", de Son Araújo

Com o advento do digital, a realização de produtos audiovisuais se tornou fácil, democrática. Quando da época das películas em celulóide, a feitura de um filme exigia muitos recursos e tudo era muito caro. A partir mesmo da exigência de se ter, na equipe, profissionais, a exemplo da captação das imagens e da iluminação que não podia ser feita por qualquer amador. Atualmente, basta se ter uma câmera para se fazer um filme. Se existe facilidade na expressão, por outro lado é preciso que haja inteligência e sensibilidade. Caso contrário, os chamados produtos audiovisuais vão para o seu destino certo: a lixeira do esquecimento. Comparo a realização desses produtos audiovisuais (detesto o nome, prefiro chamá-los de filmes, simplesmente) às poesias e versalhadas de antigamente. Todos queriam ser poetas e ver seus escritos publicados em jornais, revistas e, se possível, editados em livros. Fazia-se poesias a torto e a direito. Para a namorada, para entes queridos ou para expressar a melancolia ou a alegria de viver.
Pretendo, na medida do possível, postar, aqui, alguns filmes do cinema que se quer baiano, principalmente as experimentações menos profissionais e mais experimentais. Há, no cinema baiano, os profissionais que fazem longa com vistas ao mercado exibidor (Edgar Navarro, Pola Ribeiro, José Umberto, Tuna Espinheira, Araripe, entre tantos!!) e aqueles que experimentam o registro das imagens em movimento pela via digital. Duda Falcão, produtor de filmes, é um ativo participante de um cinema quase 'a latere', mas que já produziu pelo menos um longa por esta via (cujo nome me esqueço agora). Ele me mandou um curta, Carrinho de Pau, de Son Araújo, que deixo aqui para que vocês possam ver e opiniar (se for o caso). Talvez esteja a surgir um novo José Mojica Marins (no que se refere à independência na produção).


sexta-feira, 25 de abril de 2008

O quinteto da morte

O post anterior mostra o grande Peter Sellers no seu tríptico papel em Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, um comediante raro, um gênio, poder-se-ia dizer, pela sua capacidade de fazer o humor patético pela contenção da expressão (como na série de A pantera cor-de-rosa), que, de repente, faz explodir o gag e, com isso, determinando ao espectador o riso incontrolável (neste particular, Um convidado bem trapalhão/The party, 1968, de Blake Edwards, é comédia antológica, já registrada nos anais da comediografia cinematográfica de todos os tempos.). Mas Sellers tem seu começo no humor negro do cinema inglês, que se pronuncia (ainda sem Sellers) com uma obra-prima, que é, indiscutivelmente, As oito vítimas (Kind hearts and coronets, 1949), com Sir Alec Guinness magistral, versátil in extremis. O quinteto da morte (The ladykillers, 1955), de Alexxander Mackendrick, tem Guinness e Sellers juntos, e é uma súmula do humor britânico. Uma velha senhora hospeda em sua casa um sinistro inquilino (Guinness, evidentemente), assim como seus quatro amigos (entre eles, Sellers, ainda um tanto gordo sem a compleição da década seguinte, mas já extraordinário), que são, na verdade, assaltantes de bancos. O resultado é uma deliciosa mistura de suspense e humor sarcástico. Aqui vai uma palhinha deste filme clássico, que foi sugerido por um amigo cinéfilo e ex-deputado, o Dr. Jaoli Pinheiro (que largou a política, vejam como são as coisas, para fazer humor em cartoon). Os talentosos irmãos Coen quebraram a cara na versão contemporânea de The ladykillers, que foi intitulado no Brasil Matadores de velhinhas, com Tom Hanks.


quinta-feira, 24 de abril de 2008

"Dr. Fantástico", de Stanley Kubrick

Stanley Kubrick, antes de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1963), se não era considerado o gênio que se tornou, estava estabelecido como um cineasta muito apreciado, principalmente por O grande golpe (The killings), quando desacerta a temporalidade da geometria da ação para mostrar vários pontos de vista sobre uma mesma situação dramática (o que, de certa forma, Orson Welles já fizera em Cidadão Kane), Glória feita de sangue (Paths of glory), e, por que não? Spartacus (apesar de empregado de Kirk Douglas, Kubrick soube desenvolver seqüências assombrosamente impactuais). Mas Dr. Strangelove surgiu pouco tempo depois da crise da Baía dos Porcos, numa época de extremada guerra fria. E sua sátira é corrosiva, a estabelecer, em certas situações, um abosoluto non sense. Peter Sellers, que já tinha aparecido em Lolita (esqueci deste, que antece a Dr. Strangelove), está inexcedível, aqui, em três papéis: o presidente dos Estados Unidos, o recruta Mandrake, e o personagem que dá título ao filme, o Doutor Strangelove. Ver este é uma obrigação para qualquer cinéfilo que queira se inteirar melhor sobre a rica filmografia de Stanley Kubrick. É divertido, inteligente, e, ainda, de quebra, temos um George C. Scott em estado de inspiração divina.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

7 homens e um destino

No alvorecer dos anos sessenta, um western aventureiro encantou a todos os cinéfilos (e, naquela época, todos os cinéfilos que se prezassem admiravam o gênero americano por excelência, segundo a definição de André Bazin. E este western, dirigido pelo competente John Sturges (Duelo de titãs, Sem lei e sem alma...) era Sete homens e um destino (The magnificent seven). Quem o viu em cinemascope, e naquele cinemascope especial do cinema Guarany em Salvador, nunca mais o tirou da memória.Adaptação do clássico Os sete samurais, de Akira Kurosawa (outra versão para o western de um Kurosawa, Yojimbo, foi feita por Martin Ritt em Quatro destinos, com Paul Newman, filme pouco visto e ainda mais pouco citado ou lembrado), Sete homens e um destino se constituiu num sucesso e foi, por anos, sendo reprisado nos cinemas. Um assassino (Eli Wallach) e seu bando perturbam e roubam uma aldeia de pobres camponeses mexicanos. Um grupo deles, orientado pelo guia da comunidade, resolve procurar pistoleiros hábeis que os defendam. Yul Brynner é contratado e fica a cargo de procurar os outros. A busca de Brynner para encontrar os demais homens já é, por si, um espetáculo à parte. O primeiro que aceita é Steve McQueen, e, na sua peregrinação, vai escolhendo os mais qualificados: Charles Bronson, ainda desconhecido do grande público, James Coburn, um atirador de facas, Robert Vaughn, pistoleiro almofadinha e cheio de traumas, Brad Dexter, Horst Buchholz (Chico), ator alemão que com este filme despontou para o estrelato, um rapaz que luta para entrar no grupo ainda que sem a experiêncioa dos demais. Sturges dirige o filme com um dinamismo surpreendente, a suscitar, em cada momento, emoção e doses de ironia - aquela ironia próprias dos homens dos westerns. Fotografado por Walter Lang, tem uma partitura que ficou nos ouvidos cinéfilos para sempre de autoria de Elmer Bernstein. Tem em DVD e deve ser procurado, pois uma beleza como espetáculo cinematográfico.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Don Quijote de Orson Welles

Sim, o título do filme é esse mesmo, a contemplar o nome do seu autor, Orson Welles. Por indicação do cineasta José Umberto, realizador baiano (seu segundo longa, Revoada, encontra-se sub judice), que me mandou o texto de Giorgio Agamben, que publico logo abaixo, retirei do You Tube estes preciosos cinco minutos de Don Quijote de Orson Welles, obra que nunca vi, mas que é considerada simplesmente genial por todos aqueles que tiveram a rara oportunidade de contemplá-la. O escrito de Agamben tem o título de Os seis minutos mais belos da história do cinema. A finalização da montagem se deu, segundo o Imdb, banco de dados completo sobre as coisas de cinema, em 1992, sete anos após o falecimento do grande artista. O que significa dizer: montagem à revelia do autor, mas segundo as suas indicações, respeitando todas as marcações anotadas pelo autor de Cidadão Kane. Como ontem foi aniverário de João Carlos Olivieri, o popular Jonga, cujo blog Pensatas se encontra entre os meus poucos favoritos (http://jongas.blogspot.com), publicitário carioca de mão cheia, por vias travessas, porque a idéia partiu de Zé Umberto, faço, aqui, deste post, um mimo natalício ao aniversariante de ontem. E vamos ao que disse Agamben sobre este monumento da arte do filme:
"Sancho Pança entra num cinema de uma cidade de província. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado de parte e fitando a tela. A sala está quase cheia, a galeria - que é uma espécie de poleiro - está inteiramente ocupada por meninos barulhentos. Após algumas inúteis tentativas de alcançar Dom Quixote, Sancho senta-se de má-vontade na platéia, ao lado de uma menina (Dulcinéia?), que lhe oferece um pirulito. A projeção começou, é um filme de época, na tela correm cavaleiros armados, de repente aparece uma dama em perigo. Imediatamente, Dom Quixote se ergue em pé, desembainha a sua espada, se precipita contra a tela e os seus golpes começam a lacerar o tecido. Na tela mostram-se ainda a dama e os cavaleiros, mas o rasgão negro aberto pela espada de Dom Quixote se alarga sempre mais, devora implacavelmente as imagens. Ao fim, da tela não resta quase mais nada, vê-se somente a estrutura de madeira que a sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no poleiro os meninos não cessam de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina na platéia o fita com reprovação.

"O que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, crer nelas a ponto de ter de destruí-las, falsificá-las (este é, talvez, o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando, ao fim, elas se revelam vazias, inatendidas, quando mostram o nada de que são feitas, somente então pagar o preço da sua verdade, entender que Dulcinéia - que salvamos - não pode nos amar."
Este blog, vale dizer, é muito sentimental mesmo.


"Rastros de ódio", de John Ford

Para se ver uma obra-prima como Rastros de ódio (The seachers, 1956), de John Ford, principalmente o seu final, belíssimo, recomenda-se, por respeito a um monumento do cinema, comprar um genuflexório ( estrado para ajoelhar e orar, com apoio para os braços). Poucas vezes, na história do filme, a poesia se faz tão abrangente num momento cinematográfico. O Tio Ethan, liberta a sobrinha interpretada por Natalie Wood - e, diga-se de passagem, em outra cena antológica e memorável, aquela do "Let's home, Debbie!", vem entregá-la. Os familiares alegres, a câmara a os acompanhar, entram em casa, e, de dentro desta, numa meio penumba, avista John Wayne, solitário, que, da porta, dá meia volta e caminha sem destino. Cumprida a sina, a de recuperar dos índios a sobrinha raptada (mesmo que fosse preciso matá-la), este sulista desesperado, finda a guerra, finda a perseguição à parenta (um motivo para viver), não tem mais razão de existir e vaga sem destino, como no plano final de The seachers. A necessidade do genuflexório é uma conditio sina qua non para a visão deste filme com o respeito requerido. O que é que tem se assistir ajoelhado a um filme ao qual se tem o maior respeito? Os cristãos não se ajoelham para reverenciar o seu Deus? No meu caso em particular, peço ajuda às palavras do mestre Luis Buñuel: Sou ateu, graças a Deus!


domingo, 20 de abril de 2008

"Viver por Viver", de Claude Lelouch

Visto com muita reserva pela crítica, o fato é que Claude Lelouch tem uma mise-en-scène muito própria, envolvente, que me delicia. Tem, em sua filmografia, filmes extraordinários, bem urdidos, bem feitos, inteligentes, como Um homem como poucos (Le voyou, 1973), que a própria crítica ranheta se dobrou e aplaudiu (quem se lembra de Le voyou?), A vida, o amor e a morte (1969), sobre a pena capital, com Amidou, sem falar de Um homem...uma mulher (Un homme et une femme, 1966). Logo depois deste, em 1967, realizou uma obra fascinante, que, lançada na época, nunca mais reapareceu. Trata-se de Viver por viver (Vivre por vivre), com Yves Montand, a bela e cativante Candice Bergen no auge de sua beleza, e Annie Girardot, uma das mais expressivas atrizes do cinema francês (quem pode, de sã consciência, esquecer-se dela em Rocco e seus irmãos/Rocco i suoi fratelli, 1960, de Luchino Visconti? Lelouh tem uma mise-en-scène que, em alguns momentos, é pioneiro do cinema publicitário (no bom sentido), com a envolvência de suas tomadas embaladas pela partitura de Francis Lai. O que não quer dizer que seja, ao dar as coordenadas do cinema publicitário moderno, comercial, mas muito pelo contrário. É sua maneira de filmar e nos encantar. Há estesia na maioria de seus filmes. Claude Lelouch é um poeta das imagens. A prova disso está no convite feito a ele, ano passado, pelo organizador da mostra internacional de São Paulo, Leon Cakoff, para vir ao Brasil como seu convidado especial. Há um filme dele, Il y a des lunes et des jours (1990), não exibido comercialmente no Brasil, que considero uma pequena obra-prima. Chamam-no de maneirista, virtuoso, mas Lelouch transcende aos termos empregados, pois a sua virtuose se encontra bastante contextualizada com a poética de suas fábulas, a misturar, sempre, de maneira indissociável, o elo sintático com o elo semântico.