A mulher do tenente francês (The french lieutenant's woman, 1991) parece que foi para a vala comum do esquecimento. O que é um absurdo, pois um filme muito bom, uma obra que reflete, com especial engenho e arte, o processo da criação cinematográfica. Quem frequentou cinema na década de 60 deve estar lembrado de Karel Reiz, diretor inglês que fez parte do Free Cinema, a renovação do cinema britânico (uma espécie de Nouvelle Vague inglesa). Reiz revelou para o mundo o talento de Albert Finney em Tudo começou num sábado (Saturday night and sunday morning, 1960), um filme sobre a classe operária da Inglaterra, filmado in loco. Finney despontaria com estridência em Tom Jones, de Tony Richardson (outro renovador dos alicerces acadêmicos da escola inglesa ao lado de Reisz, John Schlesinger, Lindsay Anderson, entre outros). Em The french lieutenant's woman temos dois grandes intérpretes nesta obra de singularidade e talento: a extraordinária Meryl Streep e o fleugmático Jeromy Irons (maiores informações sobre o filme no meu blog: http://setarosblog.blogspot.com). Vejam o trailer:
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
sábado, 18 de outubro de 2008
"Rio Bravo"
Este blog, tão desatualizado, volta com um momento especial da arte do filme: Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959), de Howard Hawks, uma resposta deste excepcional realizador aos westerns psicológicos que então estavam a aparecer (Billy the Kid, com Paul Newman, de Arthur Penn, entre outros). É, na verdade, além de um filme de ação, uma observação sobre o comportamento humano. Com poucas cenas de ação, o filme se passa quase todo dentro de uma delegacia e no interior de um hotel. É o homem e suas artimanhas que interessa a Howard Hawks. A se reparar em sua rica filmografia, dividida entre a comédia louca e o western e os filmes de aventuras, nestes os personagens se encontram sempre à espera de algo acontecer. No caso de Rio Bravo, à espera do tiroteiro final para a resolução do conflito. No caso de Hatari!, à espera do momento de caçar. Entre outros exemplos. Hawks sabe, como poucos (e, entre eles, Billy Wilder, Alfred Hitchcock...) elaborar os finais de seus filmes com engenho e arte. Em Rio Bravo (filme que tornaria Dean Martin um ator respeitável após a dissolução da dupla que fazia com Jerry Lewis), o fecho é de uma graça extraordinária. Findo o conflito, John Wayne vai procurar Angie Dickinson no hotel e, quando a encontra, ela o derruba na cama ("a única derrota do cowboy invencível") e joga seu chapéu pela janela que vai cair em cima de Dean Martin e Walter Brennan, que, bêbados, comemoram o desenlace.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Como matar sua esposa, de Quine
E aqui temos um grande momento de Como matar sua esposa (How to murder your wife, 1965), de Richard Quine, o mesmo realizador do post anterior que mostra uma belíssima cena de O nono mandamento. O crítico e pesquisador Sérgio Andrade tem razão quando diz que "a câmera descendo pelo corpo da Kim no final da cena é genial!" Quine é um caviar para ser apreciado com cuidado e admiração. Há engenho e arte em suas comédias, e sabe, como poucos, explorar a beleza das mulheres, a exemplo de Kim Novak e , aqui, em How to murder your wife, a graça e o encanto de Virna Lisi a sair, divina, de um bolo gigante para a estupefação de um Jack Lemmon embriagado. Tenho muito de minha formação cinematográfica, devo confessar, neste período do cinema americano no qual havia um refinamento e uma sofisticação indiscutíveis (Charada, de Stanley Donen, Bonequinha de luxo, de Blake Edwards, entre tantas e tantas outras que daria para ficar citando pelo blog adentro). Infelizmente, o caldo cultural contemporâneo está distante de toda essa finesse. Pena!
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
O nono mandamento, de Richard Quine
Uma pequena obra-prima O nono mandamento (Strangers when we meet, 1960), do grande Richard Quine (há comédia mais genial do que Como matar sua esposa, com Jack Lemmon, Terry Thomas e Virna Lise? E o que dizer de Aconteceu num apartamento ou Quando Paris alucina, com William Holden e Audrey Hepburn, entre tantas outras?). Kirk Douglas, neste melodrama de alta densidade de sofisticação, é um arquiteto casado que se apaixona por sua vizinha, a esfuziante Kim Novak, também casada como ele. O tema, hoje, batido, mas na época o adultério ainda fazia certo furor. Mas o que importa mesmo em O nono mandamento é a beleza de sua mise-en-scène, o talento de Quine como regista, os atores magníficos. Além do Spartacus, e da Madeleine, Barbara Rush e Walter Matthau. Filme esquecido que não se encontra em DVD nem passa em canal por assinatura. Será que a Confraria dos Baixistas consegue tirá-lo via download?
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Modesty Blaise, de Losey
Modesty Blaise (1967), de Joseph Losey, condensa a cultura pop dos esfuziantes anos 60 com a paródia dos filmes à la James Bond, com a maravilhosa Monica Vitti dos filmes de Michelangelo Antonioni, uma mulher que encantou o século passado aqui num trecho do filme ao lado de Terence Stamp, o anjo pasoliniano de Teorema. Sob a direção de um talento que atende pelo nome de Joseph Losey (o seu O criado/The servant é uma obra de mestre).
terça-feira, 17 de junho de 2008
Dio come ti amo
A crítica, na época, abominou, mas o público adorou. Estou a me referir a Dio come ti amo (1966), de Miguel Iglesias, melodrama bem água-com-açucar (como se dizia antigamente), que se constituiu num fenômeno de bilheteria. Basta dizer que ficou mais de 24 semanas (mais de dois anos, portanto) em cartaz num único cinema em Salvador, o Nazaré, com sessões lotadíssimas todos os dias. Aos sábados e domingos, com sessões às 14, 16, 18, 20 e 22 horas, era preciso que se chegasse duas horas antes para se poder comprar o ingresso. Com Gigliola Cinquetti (que canta a canção-tema, principalmente no final apoteótico, quando seu amado (Mark Damon), já dentro do avião, prestes a decolar, ouve, pelo alto-falante, Gigliola no aeroporto a cantar. O público veio abaixo. Trata-se de uma co-produção entre a Itália e a Espanha, com um ranço anedótico e melodramático mais deste último. Lembro-me que vi, dentro da sala exibidora, muito intelectual enragé que procurava se esconder quando via algum conhecido com vergonha de ali estar. Há um outro filme que fez sucesso parecido, mas de outra qualidade, de outro nível: O candelabro italiano (Rome adventures, 1963), com Rossano Brazzi, Troy Donahue, Suzanne Pleshette. Não é indicado para post de um blog Momentos da arte do filme, mas blog é para estas coisas.
domingo, 15 de junho de 2008
Aquele que sabe viver
Dino Risi introduz a tragédia na comédia e, em Aquele que sabe viver (Il sorpasso, 1962), o que retrata é uma Itália já refeita do drama da guerra num cinema pós-neo-realista. Neste momento em particular, registrado aqui em imagens, há, no diálogo entre Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintgnant, uma referência à monotonia dos filmes de um colega de Risi e muito querido: Michelangelo Antonioni. Il sorpasso virou um cult e é imensamente prestigiado pela crítica mundial - e saiu em DVD em cópia reluzente, luminosa, restaurada, com um extra imperdível: uma longa entrevista com o mestre Risi, que fala do filme, da Itália, do cinema, além de umas palavras de um Vittorio Gassman, também nos extras, já no fim de sua trajetória, mas ainda um ultrapassador, um homem do seu tempo, um artista imenso.
sábado, 14 de junho de 2008
Monica sob o olhar de Dino Risi e na motocicleta
Monica Vitti, bela, belíssima, a musa da incomunicabilidade, a musa de Michelangelo Antonioni, aqui na motocicleta em um momento de Nós as mulheres somos assim ('Noi donne siamo fatte cosi' 1972 ), de Dino Risi, comediógrafo italiano que morreu semana passada. Para o vosso deleite!
quarta-feira, 14 de maio de 2008
"Les demoiselles de Rochefort", de Jacques Demy
Original em sua concepção cinematográfica e, principalmente, em relação ao filmusical, Jacques Demy é um realizador atípico do cinema francês. Consagrou-se com a Palma de Ouro em Cannes por causa de Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de Cherbourg, 1964), um filme todo cantado que surpreendeu pela originalidade, pelo encanto, pela poesia. Com uma Catherine Deneuve ainda bem jovem, Demy soube lhe aproveitar o ar ingênuo e fazê-la atriz, deixando-a pronta para ser a Belle de Jour, de Luis Buñuel, três anos mais tarde. Mas também nesta época, quando o bruxo espanhol fazia, com ela, A bela da tarde, Demy a chamou para um impressionante ensaio sobre a beleza, que é Duas garotas românticas (Les demoiselles de Rochefort, 1967), outra pérola de inventividade, poesia, beleza. Deneuve trabalha, aqui, ao lado de sua irmã, Françoise Dorleac (que está simplesmente divina em Um só pecado/Le peau douce, 1964, de François Truffaut), que viria a morrer logo depois das filmagens em acidente aéreo. Vale ressaltar a presenta em Les demoiselles de Rochefort de Gene Kelly, que se ofereceu a Demy para participar depois de ter visto o maravilhoso Les parapluies de Cherbourg.
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